quinta-feira, julho 27, 2006

Uma Nota sobre a Teoria Cognitivo-Comportamental

Tendo actualmente como principais referências os trabalhos de Beck, Lazarus e Ellis, a Teoria Cognitivo-Comportamental (TCC) conquistou um lugar de destaque no panorama teórico-prático da psicologia. Em Portugal já domina grande parte das instituições públicas de saúde e arrisca-se a ser a forma de abordagem predominante dos psicólogos e psiquiatras portugueses.
O meu conhecimento da TCC é maior na teoria beckiana do que em todas as outras, pelo que me limitarei a falar sobre esta, que aparenta ser a mais consensual mesmo entre os teóricos cognitivos.
É sabido que Aaron T. Beck era psicanalista antes de considerar que a psicanálise carecia de instrumentos práticos e terapêuticos (nomeadamente no campo da depressão) suficientemente eficazes para dar resposta ao sofrimento do doente. Descontente, desenvolveu então a sua teoria que dá conta de um constructo teórico de explicação da doença depressiva bem como de uma base terapêutica (entretanto porfiada pela sua filha Judith S. Beck) a seguir. Esse constructo assenta em alguns princípios comuns a todas as teorias cognitivas e enquadra-se no âmbito epistemológico cognitivo de base, contudo reportando-se de forma específica à descrição da psicoetiologia depressiva. E a sua ideia primordial é simples: a depressão é uma distorção do pensamento, um processamento de informação com erros cognitivos que provêm de estruturas de pensamento mais ou menos nucleares desadaptadas. E é, a meu ver, precisamente nesta ideia fundamental que reside o erro comum a todas as TCC.
A pedra angular do corpus teórico cognitivo reside na assunção de que é na distorção do pensamento que se dá a distorção do afecto. É nos erros cognitivos que deve ser procurada e onde deve ser eliminada a depressão. Para a TCC, o pensamento precede o afecto na medida em que são os erros do pensamento que originam um afecto indesejado.
Ora, muito antes de pensar e sequer raciocinar o ser humano sente. Os primeiros anos de vida são fundamentalmente experiências de sensações, de diferenciação somatopsíquica, que depois evoluirá para a construção de esquemas cognitivos. Cronologicamente, é o afecto que precede o pensamento, e não o contrário. A neurobiologia prova-nos a hierarquização das funções mentais, desde as profundezas do sistema límbico e diencefálico até à superfície neocortical; a lei de Haeckel deixa-nos sonhar que talvez a diferenciação progressiva do sistema nervoso num pequeno feto desde a sua concepção seja a repetição do que aconteceu em mais de 4 milhões de anos de evolução...
Em suma, inclino-me para aceitar que o sentimento é em todos os níveis anterior ao pensamento. Aliás, constitui a base para o desenvolvimento desse pensamento como os alicerces sustêm um edifício. A hipótese de Damásio, por exemplo, dos marcadores somáticos parece-me ter por base precisamente estas noções.

4 comentários:

Filipa disse...

Costumo seguir à risca a máxima: ‘para criticar é preciso conhecer’. Das TCC conheço muito pouco, admito, mas o que conheço penso que já me permite fazer uma crítica. Como todas as correntes teóricas, esta deu contributos importantes, mas também tem grandes falhas.
Considero a Psicanálise a perspectiva mais profunda por abarcar processos inconsciente, para além dos conscientes. É a única que permite uma reestruturação da personalidade e por isso ser tão duradoira, arrastando-se anos e anos. Contudo, a meu ver, é a perspectiva Psicodinâmica (filha da psicanálise!) que é a mais completa de todas elas. Apesar de não aprofundar como a anterior, tem em conta os processos inconscientes que actuam sobre o consciente, sobre a realidade, e tem em conta a organicidade. Este aspecto é fundamental, visto que não nos podemos esquecer que o ser humano é bio-psico-social!!


Já estou a ver um livro a ser editado por Ricardo Miguel Pina, intitulado ‘O erro de Beck’!! :p

Ricardo Miguel Pina disse...

;)... Entendo a tua admiração pela psicodinâmica e revejo-me nela, estando de acordo com quase tudo o que escreveste. Contudo, discordo num ponto. A teoria beckiana não esquece assim tanto os processos inconscientes nem a multidimensionalidade do psiquismo humano. Para Beck os «erros cognitivos», os «pensamentos automáticos» e o sistema de crenças são somente as manifestações visíveis de grandes «estruturas cognitivas» de base que funcionam como padrões prototípicos de todo o sistema cognitivo. Estas estruturas localizam-se, por assim dizer, a níveis inconsciente e pré-consciente. É claro que o inconsciente beckiano não é o reservatório pulsional do homólogo de Freud nem compreende a actividade e importância que Freud lhe atribuiu. Mas sem dúvida que Beck reconhece a existência e a preponderância de tudo aquilo que, nos constituindo, apesar disso não conhecemos.
Sem dúvida que a psicodinâmica aufere mais importância ao continuum psicossomático que qualquer outra disciplina e que somente a psicanálise pode permitir uma verdadeira evolução interior (não acredito muito na possibilidade de uma verdadeira reestruturação da personalidade... influências de Bergeret!) do ser humano. Mas o trabalho de Beck é em muitos pontos pertinente e lógico, respeitador da complexidade do psiquismo humano.


Ah! Quanto ao meu futuro livro... Goza, goza!! Qualquer dia ainda te surpreendo!! :pppp

Filipa disse...

Lá está não conheço assim tanto da Teoria Beckiana. Contudo, parece-me que Beck, mesmo reconhecendo a existência de processos inconsciente por trás dos conscientes, não os trabalha (se é que os trabalha) com a profundidade da Psicanálise. Foi isso que me levou a dizer que a Psicanálise é a perspectiva que faz um trabalho mais completo e profundo, capiche? ;)

Ricardo Miguel Pina disse...

Sim, sem dúvida aí tens razão! Mais nenhuma outra prática aborda o psiquismo humano com a mesma profundidade do que a psicanálise.
«Freud explica» ;)!