quinta-feira, julho 13, 2006

«Amor» e «Paixão»: Um Exame Linguístico

Conceitos que pertencem à mesma rede semântica, mas que muitos acreditam designarem coisas diferentes, «amor» e «paixão» continuam a desempenhar um papel capital na vida fantasmática da sociedade. Preenchendo o imaginário de todos nós, são pré-requisito de uma vida de sucesso, alimentados desde a infância pelos contos de fadas até à vida adulta pelos media.
Por este post não me proponho a defini-los (essa tarefa é quase hercúlea), mas antes a tentar perceber onde divergem. Demasiado próximos entre eles, continuam a ser usados indiscriminadamente para definir uma mesma coisa, ou várias similares. Não criticando o seu uso indistinto, procurarei aclarar a diferença entre «amar» e «estar apaixonado por», dissemelhança que me parece suficientemente clara para ser assinalada sem necessidade de recurso a um estudo exaustivo.
Intimamente, penso que todos nós conhecemos essa diferença. Dizer um «eu amo-te» é de longe mais difícil e comprometedor (ou pelo menos deveria ser) do que um «estou apaixonado por ti», a não ser que se ame de facto. Da mesma forma, uma e a outra frase desembocam em duas interpretações diferentes para quem as ouve e recebe. Na minha óptica, a primeira (mas nunca única) razão para este reconhecimento implícito da diferença reside precisamente no recurso linguístico que cada frase utiliza.
Tomemos o exemplo das línguas germânicas. No inglês existe o «I love you» mas também o «I’m in love with you». O primeiro acaba por ser um homólogo do português «eu amo-te», enquanto o segundo declara algo como «estou em amor por ti», normalmente traduzido para o já referido «estou apaixonado por ti». Na língua inglesa não é muito comum, de facto, utilizar-se o termo «passion» adaptado às relações humanas, no sentido afectuoso que «paixão» contém na sua forma portuguesa. No alemão mantém-se esta regra. O mais comum «Ich liebe Dich» (ou «eu amo-te») poderá eventualmente ser substituído por «Ich bin in Dich verliebt» (ou «estou em amor por ti»), exactamente da mesma forma que a fórmula inglesa, conservando também a sua comum negligência pela «paixão».
Logo, nas línguas germânicas, ao invés de se usar o «estou apaixonado por ti» (utilizando assim o conceito de «paixão») opta-se por uma fórmula alternativa, e o que caracteriza esta fórmula é uma expulsão do amor enquanto objecto interno para um «locus» externo no qual o sujeito se «encontra». Enquanto o «I love you» e o «Ich liebe Dich» significam literalmente «eu amo-te», porquanto pressupõem uma internalização completa do «amor», «I’m in love with you» e «Ich bin in Dich verliebt» oferecem a impressão desse «amor» como um espaço extrínseco que é ocupado por aquele que o diz – «estou em amor por ti». É precisamente a preposição «em» (em ambas as línguas expresso na preposição «in») que dá conta de uma localização, mesmo de uma «situação», na qual o sujeito se encontra, bem diferente da impressão que fica de um «eu amo-te», cuja construção morfossintáctica testemunha uma verdadeira posse do «amor» pelo «eu».
E o que acontece nas línguas latinas? No português já se sabe, e é também conhecida «la pasión» espanhola. Mas o francês também não tem por hábito utilizar a «passion» no sentido referido. Tal como no inglês e no alemão, ela é preferencialmente utilizada para definir o gosto por fazer algo (uma profissão ou um hobby) ou por um objecto. Os franceses utilizam (talvez por isso sejam considerados românticos…) de forma indiscriminada o «je t’aime» ou, quando o amor quase não se segura, «je suis fou de toi» (literalmente «estou/sou louco por ti»), não possuindo uma fórmula alternativa equivalente às línguas portuguesa, inglesa e alemã.
É portanto nestes três idiomas que encontramos uma acepção fundamental: existem duas formas de se declarar o «amor» ou a «paixão» e, como visto, uma dessas formas é mais profunda do que a outra, afirmando um sentimento mais intenso e um outro nem tanto. No português, a distinção recai entre o uso dos conceitos «amor» ou «paixão», enquanto que nas línguas germânicas se usa somente o «amor», mas em construções morfossintácticas díspares que advogam a mesma distinção feita na língua de Camões. Como tal, a própria língua parece conhecer a diferença entre «amar» e «estar apaixonado por», e penso que um estudo mais aprofundado destas propriedades linguísticas seria extremamente útil na compreensão destes dois conceitos, tão próximos e ao mesmo tempo tão diferentes.
A ideia muito básica que fica deste exame é que «amor» designa algo mais sólido e perene do que a «paixão», sua equivalente mais frágil e efémera. Será que naquela noite no Rivoli, se a acompanhante do Carlos Tê não o tivesse abandonado, a música do Rui Veloso continuaria conhecida por «A Paixão»? E se ela tivesse feito um esforço para gostar daquela «música maluca»? Pessoalmente acho que o Rui Veloso jamais cantaria uma música assim… A «paixão» é e quer-se intensa mas fugaz.

5 comentários:

Filipa disse...

Já tinha refletido sobre esta questão de diferença de expressão do amor e paixão nos idiomas português e inglês. Não indo tão longe, até porque não tenho conhecimentos linguísticos tão vastos!
No meu ponto de vista (e sublinho, é o que penso/sinto), concordo que o amor seja forte e sólido, mas não vejo a paixão assim tão frágil e efémera!
O amor é o alicerce da construção do nosso ser, já que é com o amor dos pais e no investimento que eles fazem em nós que nos desenvolvemos. Aprendemos a amar com o Outro, na relação com o nosso objecto de amor. Contudo, a paixão é um ingrediente fundamental que precisamos ao longo da vida para crescer enquanto pessoa. É a paixão que nos motiva e leva ao que nos é desconhecido e nos permite, assim, conhecer realidades que nos são desconhecidas.
Na perspectiva das relações amorosas, concordo que primeiro vem a paixão e depois o amor. Contudo, não considero que o amor venha tirar lugar à paixão, ambos são capazes de co-existir sem colidirem um com o outro. Penso que acabando a paixão e não havendo amor, a relação não sobreviveria; mas também não duraria muito se não houvesse o ingrediente paixão a sustentar o amor pelo Outro.

Ricardo Miguel Pina disse...

Sem dúvida. Tenho de concordar contigo. Embora o objectivo inicial deste post fosse o de proceder a uma análise puramente linguística, penso que acabei por fazer juízos precipitados.
Concordo contigo quando dizes que amor e paixão podem existir em simultâneo. Aliás, penso que é precisamente essa simbiose que define uma relação bem-sucedida.
Contudo, um apagamento progressivo da paixão com o tempo parece-me inevitável, embora nalguns casos seja mais maciço que em outros. Nesse sentido, a paixão é determinante pq despoleta a relaçáo (o conhecido «click») e é na sua base que deve ser consruído o amor. Mas isto dava para outro post...

Filipa disse...

Eu sei que o objectivo do teu post era uma nálise linguísticas. Contudo, como percebo pouco de idiomas, falei do que perceo melhor! ;)
Peço desculpa pelo desvio do assunto, mas concordo plenamente com o que dizes!!!

Filipa disse...

Sei que me desviei do tema do post e peço desculpas por isso.. mas como percebo pouco de idiomas, resolvi falar do que melhor sei! ;))
Concordo plenamente com o que dizes!! Força nesse próximo post!!

Ricardo Miguel Pina disse...

Não tens que pedir desculpa:). Eu é que me precipitei e estendi a minha análise mais do que devia, e erradamente! E as tuas reflexões provaram isso!